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sexta-feira, agosto 7, 2026

20 anos após a Lei Maria da Penha, desafio em Mato Grosso do Sul ainda é impedir que mulheres sejam mortas

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Mesmo com uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à violência doméstica, Mato Grosso do Sul já registra 21 feminicídios em 2026 e mais de 12 mil vítimas de violência contra a mulher neste ano.

Vinte anos após a criação da Lei Maria da Penha, considerada um marco no enfrentamento à violência doméstica no Brasil, Mato Grosso do Sul ainda convive com números alarmantes de agressões e feminicídios. Embora a legislação tenha fortalecido a rede de proteção às vítimas e ampliado os mecanismos de responsabilização dos agressores, especialistas avaliam que o principal desafio atualmente é transformar as leis em proteção efetiva e romper o ciclo da violência.

Somente em 2026, até o início de agosto, o Estado contabiliza 21 feminicídios e 12.438 mulheres vítimas de violência doméstica, evidenciando que a violência de gênero permanece como um grave problema social.

A história que mudou a legislação brasileira

A Lei nº 11.340 foi sancionada em 7 de agosto de 2006 após quase duas décadas de luta da farmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes, que sobreviveu a duas tentativas de assassinato praticadas pelo então marido.

Em 1983, ela foi baleada enquanto dormia e ficou paraplégica. Meses depois, sofreu uma nova tentativa de homicídio ao ser mantida em cárcere privado e submetida a uma tentativa de eletrocussão durante o banho.

A demora da Justiça brasileira em responsabilizar o agressor levou o Brasil a ser condenado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, fato que impulsionou a criação da legislação.

Desde então, a Lei Maria da Penha passou a reconhecer diferentes formas de violência contra a mulher — física, psicológica, sexual, patrimonial e moral — além de criar instrumentos como as medidas protetivas de urgência.

Rede de proteção foi ampliada

Para a subsecretária estadual de Políticas Públicas para as Mulheres, Manuela Nicodemos Bailosa, a principal conquista da legislação foi transformar o combate à violência doméstica em uma política pública permanente.

Segundo ela, a lei possibilitou a estruturação de uma rede formada por delegacias especializadas, varas judiciais, Ministério Público, Defensoria Pública, Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CRAMs), CEAMCA e Salas Lilás.

“A grande conquista da Lei Maria da Penha foi inserir a violência contra as mulheres na agenda institucional dos três Poderes e das administrações municipais, estaduais e federais”, afirmou.

Violência continua em níveis elevados

Apesar do fortalecimento da rede de proteção, os registros permanecem elevados.

Dados do Monitor da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), mostram que somente em 2026 já foram registradas 12.438 vítimas.

Em 2025, o Estado contabilizou 22.307 mulheres vítimas de violência doméstica, o maior número da série histórica iniciada em 2016.

Medidas protetivas crescem

As medidas protetivas continuam sendo o principal instrumento para afastar o agressor da vítima.

Em 2025 foram:

  • 18.187 pedidos de medidas protetivas;
  • 22.962 fiscalizações preventivas;
  • 3.719 ocorrências de descumprimento das ordens judiciais.

Em 2026, até agosto:

  • 11.808 pedidos foram apresentados;
  • 11.133 medidas foram concedidas;
  • 1.220 precisaram ser prorrogadas;
  • 16.464 fiscalizações já foram realizadas;
  • 1.985 casos envolveram descumprimento das medidas.

A violência acontece dentro de casa

Os dados revelam que a residência continua sendo o principal cenário das agressões.

Desde 2016, Mato Grosso do Sul registrou:

  • 157.988 ocorrências dentro de residências;
  • 30.398 casos em vias públicas.

Na maioria das situações, o agressor mantém relação íntima com a vítima.

Os principais autores das agressões são:

  • cônjuges;
  • companheiros;
  • namorados;
  • pais;
  • filhos;
  • irmãos.

Perfil das vítimas

A maioria das mulheres vítimas de violência doméstica no Estado possui entre 30 e 59 anos.

Em relação à raça/cor declarada:

  • 110.861 são pardas;
  • 55.815 brancas;
  • 9.029 pretas;
  • 2.806 indígenas;
  • 473 amarelas.

Feminicídios continuam preocupando

Mesmo com toda a estrutura de proteção existente, Mato Grosso do Sul já soma 21 feminicídios em 2026.

Desde que a qualificadora do feminicídio entrou em vigor, em 2015, o Estado registra uma média de aproximadamente 30 assassinatos de mulheres por ano motivados por violência de gênero.

De acordo com a subsecretária, muitos desses crimes poderiam ser evitados se a violência doméstica deixasse de ser tratada como um problema privado.

“Muitas mulheres ainda são julgadas quando decidem terminar um relacionamento. Familiares deixam de apoiá-las, vizinhos preferem não denunciar e muitos ainda tratam a violência como um problema do casal. Hoje, uma mulher que sonha em ser livre e reconstruir sua vida afetiva ainda pode colocar sua vida em risco”, destacou.

Novas leis acompanham novas formas de violência

Ao longo dos últimos anos, a legislação foi ampliada para enfrentar novas modalidades de violência.

Entre as mudanças estão:

  • criminalização da violência psicológica;
  • endurecimento das punições para quem descumpre medidas protetivas;
  • tipificação da violência psicológica praticada por meio de inteligência artificial e conteúdos manipulados, prevista na Lei nº 15.123/2025.

Também está em discussão no Congresso Nacional uma proposta para criminalizar a misoginia, ampliando o combate aos discursos de ódio contra mulheres, especialmente no ambiente digital.

Para Manuela Bailosa, embora o avanço legislativo seja importante, a redução da violência depende principalmente de mudanças culturais.

“A responsabilidade de proteger a vida das mulheres não é apenas uma tarefa do governo. É uma responsabilidade de toda a sociedade.”

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